MA Mundo Agrario, abril - julio 2026, vol. 27, núm. 65, agosto-noviembre 2026, e329. ISSN 1515-5994
Universidad Nacional de La Plata
Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación
IdIHCS (UNLP-CONICET)
Centro de Historia Argentina y Americana

Dosier: Trabajo social en ámbitos rurales y periurbanos

Como a extensão universitária contribuiu para a criação de um movimento camponês no Rio de Janeiro

Elaine Martins Moreira
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Serviço Social, Brasil
Cita sugerida: Martins Moreira, E. (2026). Como a extensão universitária contribuiu para a criação de um movimento camponês no Rio de Janeiro. Mundo Agrario, 27(65), e329. https://doi.org/10.24215/15155994e329

Resumo: O texto aqui apresentado parte de uma experiência extensionista junto ao movimento social camponês na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com o objetivo de refletir sobre o papel da universidade pública e sobre os pressupostos da pesquisa e da extensão. Fundamentadas na premissa freiriana de transformação mútua dos sujeitos participantes de um processo de educação popular, são apresentadas ações de parceria entre a universidade e a organização popular que, ao longo de uma década, têm gerado resultados importantes para os agentes envolvidos, com ênfase ao protagonismo do campesinato na realidade social e política.

Palavras-chave: Extensão universitária, Campesinato, Soberania alimentar.

The Contribution of university extension to the formation of a peasant movement in Rio de Janeiro

Abstract: The text presented here stems from an outreach experience with the peasant social movement at the Federal University of Rio de Janeiro (UFRJ), with the aim of reflecting on the role of the public university and on the assumptions of research and outreach. Based on the Freirean premise of the mutual transformation of the subjects participating in a process of popular education, partnership initiatives between the university and the grassroots organization are presented which, over the course of a decade, have generated important results for the actors involved, with emphasis on the leading role of the peasantry in the social and political reality.

Keywords: University outreach, Peasantry, Food sovereignty.

Cómo la extensión universitaria contribuyó a la creación de un movimiento campesino en Río de Janeiro

Resumen: El texto presentado aquí se basa en una experiencia de extensión con el movimiento social campesino en la Universidad Federal de Río de Janeiro (UFRJ), con el objetivo de reflexionar sobre el papel de la universidad pública y sobre los supuestos de investigación y extensión. Basándose en la premisa freireana de transformación mutua de los sujetos que participan en un proceso de educación popular, se presentan acciones de colaboración entre la universidad y la organización popular que, durante una década, han generado resultados importantes para los agentes implicados, con énfasis en el protagonismo del campesinado en la realidad social y política.

Palabras clave: Extensión universitaria, Campesinos, Soberanía alimentaria.

1. Introdução

Este texto parte da experiência na extensão universitária junto a camponeses e suas entidades organizativas. Mais precisamente, da experiência do Laboratório Questão Agrária em Debate (QADE) criado em 2012 na Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Um ano antes, ocorreu a criação de uma turma de graduação em Serviço Social integrada por estudantes provenientes dos movimentos camponeses, de diversos estados do Brasil e, mais precisamente, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). Isso se deu por meio de um convênio da UFRJ com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) para operacionalizar esta formação acadêmica via política pública denominada PRONERA: Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária.1

Cabe destacar a participação da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), que acompanhou todo o processo pedagógico. Essa escola é um espaço formativo do MST, que tem sede em São Paulo e trabalha com organizações populares de todo o mundo. Durante o período de duração do curso, os/as estudantes eram estimulados a participar de ações de pesquisa e extensão, grupos de estudo e, necessariamente, precisavam fazer 4 semestres de estágio. Neste contexto, é que o Laboratório QADE2 receberá estudantes como estagiários em seus projetos de extensão universitária. As docentes que criam o laboratório já tinham experiências anteriores na extensão universitária, todavia, nesse momento, ocorre essa coincidência histórica da concomitância temporal com esse grupo estudantil de origem camponesa. Isso faz com que a equipe da universidade e estudantes partilhem de experiências que se alimentarão de ações de pesquisa e extensão que consolidarão seus pressupostos mutuamente.

Nas páginas que se seguem, vou destacar alguns processos e resultados dessa articulação que compõem o que entendemos por uma via de “mão dupla” resultante da função social que cabe à universidade pública em conjunto com segmentos populares da sociedade civil. As fontes de pesquisa para a redação desse artigo são documentais, grande parte delas sistematizada pelos militantes do movimento social, bem como pela equipe dos projetos extensionistas e ainda por fontes online de sítios eletrônicos oficiais.

2. A extensão universitária regando sementes

A indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão é um princípio da Constituição Federal de 1988. Porém, historicamente, esta última dimensão ficou relegada. Por diversos motivos, entre eles o financiamento insuficiente para custear ações que, para se efetivarem, devem se dar, predominantemente, fora dos muros das universidades. Outra razão nos parece ser fruto do elitismo do ensino superior brasileiro. Direcionando seu acesso, por décadas, a uma parcela minúscula da sociedade, também não possuía, entre a comunidade acadêmica, uma predominância extensionista, ficando esta a cargo da realização de setores aproximados à educação popular munidos, muitas vezes, apenas do “otimismo da vontade” com parcas ferramentas e recursos materiais.

Para este início de conversa, dialogando com a revista que abriga este texto, é relevante dizer que a extensão universitária tem uma interlocução profícua com os sujeitos que vivem no campo, desde os precursores do debate extensionista. Paulo Freire, em 1968, publicou a obra “Extensão ou Comunicação” a partir de sua vivência no Chile junto ao processo de assistência técnica, predominantemente, de agrônomos por meio da extensão rural que, mesmo não sendo sinônimo da extensão universitária, tem correlação. Pois a relação entre técnicos, cientistas ou educadores e as populações rurais pode ser mediada por uma política ou instituição pública (e, mais ainda, por uma empresa privada), o que pode resultar em ações muito hierarquizadas.

Repetimos que o conhecimento não se estende do que se julga sabedor até aquêles que se julga não saberem; o conhecimento se constitui nas relações homem-mundo, relações de transformação, e se aperfeiçoa na problematização crítica destas relações. [...] Esta apropriação crítica os impulsiona a assumir o verdadeiro papel que lhes cabe como homens. O de serem sujeitos da transformação do mundo, com a qual se humanizem. Por tudo isto, o trabalho do agrônomo não pode ser o de adestramento nem sequer o de treinamento dos camponeses nas técnicas de arar, de semear, de colhêr, de reflorestar etc. Se se satisfizer com um mero adestrar pode, inclusive, em certas circunstâncias, conseguir uma maior rentabilidade do trabalho. Entretanto, não terá contribuído em nada ou quase nada para a afirmação dêles como homens mesmos (Freire, 1983, pp. 22, 23).

Portanto, o ponto de partida do trabalho com os camponeses e suas organizações políticas se sustenta no princípio de que a universidade não é detentora de todo o saber; mais ainda, se entende que ela estuda alguns saberes, suas metodologias e técnicas. Porém, há outros saberes. Outros espaços, territórios e culturas têm formas diversas de conhecimento e de sua difusão. A oralidade é uma forma de difusão de saberes muito presente entre os povos originários do campo, das águas e da floresta. A ciência e a academia ocidental possuem vertentes importantes de elaboração e sistematização, mas elas não são exclusivas e unívocas.

O Laboratório Questão Agrária em Debate (QADE), nestes treze anos de trabalho, já desenvolveu suas atividades em distintas frentes de ação e diferentes territórios do estado do Rio de Janeiro, porém, sempre tendo a premissa da ação conjunta com os movimentos sociais que organizam o campesinato. Desde 2014, a extensão universitária no Brasil é impulsionada por lei para fazer parte do currículo de todos os cursos de graduação; todavia, a experiência de que tratamos aqui é anterior à lei. Para ajudar a contar essa experiência de articulação, estou recorrendo a outras publicações que incluem o relato de militantes sociais sobre essa história de trabalho coletivo.

Para a UFRJ, nós construímos um projeto de extensão, na época do estágio. Uma das brigas que eu tive dentro da universidade, que a turma teve, é que nós achávamos que nosso estágio não era só fazer relatório ou pesquisa. Tinha que ser um estágio que vinculasse ao processo de organização militantes, junto com a universidade. E nós não iríamos para fazer o estágio ou pesquisa e extensão só enquanto universitários. Nós iríamos como militantes também e, como a profissão prega nas suas diretrizes, nós nos sentimos enquanto parte da classe, não é? Ou seja, enquanto profissionais, uma das profissões em que nós somos parte da classe trabalhadora (Servolo & Botelho, 2022, p. 276).

Aqui o militante do MPA está contando como iniciou o trabalho junto ao Laboratório quando era estudante de Serviço Social da turma mencionada anteriormente. O ano era 2013. Além da atividade de pesquisa e extensão, alguns estudantes dessa turma fizeram também o seu estágio profissional, sendo um deles militante do MST e outro militante do MPA.

Aí, resolvemos fazer dois estágios, um na Baixada e um em Teresópolis. O na Baixada foi focado nas sementes, para a gente fazer um experimento de sementes. A gente fazia o lote do estágio. E o da região serrana seria um trabalho de identificar as condições sócio produtivas do assentamento. Então nós viemos fazer a pesquisa e estágio ao mesmo tempo e aí organizamos na universidade uma feira, uma feira da reforma agrária e da cultura camponesa. O MPA mandou produto, o MST mandou e nós trouxemos a produção do MST do estado e desses agricultores (Servolo & Botelho, 2022, p. 276).

Desde o início, as ações se dão em dois territórios distintos, em municípios próximos à cidade do Rio de Janeiro. A chegada a estes lugares foi pela presença de assentamentos de trabalhadores rurais, pelas articulações prévias e pelo conhecimento do território. Uma atividade pioneira foi a realização da feira dentro do campus da universidade.

Nós começamos esse trabalho na Fazenda Alpina trazendo os camponeses para essa feira da UFRJ, ainda em 2015, e, nesse processo, a gente começou a criar um grupo de agricultores que começou a falar do MPA tanto em Nova Iguaçu, quanto na região serrana, e em Campos, em São João da Barra (Servolo & Botelho, 2022, p. 277).

Vê-se, portanto, nessa passagem a relevância do trabalho extensionista. Por meio dele, se potencializou um trabalho político organizativo de pequenos agricultores que, apesar de existir em outras regiões do Brasil, não estava articulado no Rio de Janeiro. E junto disso, a constatação da necessidade de situações concretas que repercutam nas condições de vida destes trabalhadores.

Então nós identificamos a pauta comum dos agricultores do Rio para o MPA chegar, ou seja, pensando no que, de alguma forma, une a classe. O que poderia ser a bandeira para a gente conseguir juntar agricultores que não se encontram? [...] Você tem que ter alguma coisa que mobilize, ou seja, vocês, por exemplo, têm alguma coisa entre os professores e junta todo mundo para fazer a luta. E aqui no Rio a gente viu que esse ponto em comum seria o que nós estamos chamando de agroecologia e abastecimento popular. Seria a parte de como organizar o processo da comercialização camponesa para chegar na cidade (Servolo & Botelho, 2022, p. 278).

Este trabalho de construção de um Sistema de Abastecimento Alimentar Popular (SAAP) continuou sendo apoiado pela extensão universitária em outras frentes para além da feira e das visitas de campo aos territórios. Como se vê em outros trabalhos de sistematização publicados em congressos de agroecologia, por integrantes do Laboratório QADE e do MPA.

Desde 2015 o projeto de extensão “Assentados da Reforma Agrária e Universidade” soma-se ao MPA para desenvolver a atividade da Cesta Camponesa de Alimentos Saudáveis, esta atividade tem como prerrogativa ser uma estratégia político econômica de fortalecimento da relação campo-cidade, na consolidação de Soberania Alimentar. [...] Como já informado a experiência Inicia-se em 2015, o primeiro passo foi criar um “laboratório de distribuição” no campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o sistema funcionava da seguinte forma: O MPA informava ao projeto quais produtos os camponeses disponibilizavam para distribuição, o projeto gerava uma lista de pedidos pela internet, os trabalhadores urbanos faziam seus pedidos, após a realização dos pedidos, o MPA coletava os produtos junto aos camponeses e levava até a universidade, a distribuição era feita pelo projeto de extensão (Teixeira & Melo, 2018, p. 09).

Nota-se o papel ativo do Laboratório Questão Agrária em Debate (QADE) na realização dessa proposta de distribuição de alimentos, por meio do que se denomina “circuitos curtos” - que favorecem a circulação dos alimentos nos territórios próximos onde são produzidos.

A força da proposta está na busca de consolidar uma metodologia de abastecimento popular que seja capaz de não depender do Estado para fazer com que o alimento produzido pelos camponeses de forma agroecológica chegue às famílias de trabalhadores/as organizados/as na cidade. Ao ter destino certo para esses alimentos pagos com preços capazes de garantir a permanecia dos camponeses no campo a produção de alimentos no Brasil aos poucos vai sendo garantida. (Teixeira & Palmeira, 2020, p. 1054).

A parceria se dava cotidianamente, incluindo recursos técnicos e saberes de que docentes e estudantes dispunham para colaborar no processo de comunicação, de sistematização e de entrega. Esse engajamento no trabalho se dá pela compreensão, técnica inclusive, de que esse modelo de produção e distribuição com protagonismo da agricultura familiar camponesa gera o fortalecimento da produção e da economia local, favorece a sanidade dos alimentos pela chegada mais rápida aos consumidores, bem como valoriza a cultura alimentar de cada povo. Fortalecer o acesso à “comida de verdade” é uma atribuição técnica de profissionais das áreas sociais e de saúde.

Na primeira da Cesta foram ofertados 4 tipos fechados de cestas com produtos selecionados, a divulgação foi feita por e-mails, os pedidos recolhidos, as cestas montadas e entregues para 15 pessoas. Seguiram-se entregas quinzenais e a quantidade de cestas cresceu, na segunda entrega para 30 e na terceira para 60, aí se incorporou também uma entrega no Campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, organizada pelos estudantes da moradia estudantil. [...] Em 2015 foram entregues 176 cestas que correspondeu ao volume de R$ 13.301,90 reais (Teixeira & Palmeira, 2020, p. 1051).

Com a receptividade e a adesão do público, o Movimento passa a fazer entregas - que começaram em setembro de 2015 - em diversos pontos da cidade. Segundo Teixeira e Palmeira (2020), um sítio eletrônico foi criado para a Cesta Camponesa3 com base em um software livre com a programação de colaboradores solidários e a permanência do apoio técnico do QADE/UFRJ para a manutenção e divulgação das entregas. Nesse período, uma das bolsas de extensão que o projeto conseguia por meio de edital era destinada a estudante da área de tecnologia da informação, justamente para que pudesse dar esse suporte. Somam-se ainda, compradores das cestas e alguns sindicatos de categorias urbanas, nesta colaboração. De acordo com Ribeiro (2022), a parceria de entidades sindicais de trabalhadores urbanos - petroleiros e metalúrgicos - foi decisiva também para a criação de um espaço físico de entreposto do Sistema de Abastecimento Alimentar Popular (SAAP) na cidade do Rio de Janeiro.

Com a entrega de alimentos fluindo faltava a construção de um entreposto para organização do estoque, montagem e distribuição dessa cesta. Em Maio de 2017 então, somada a outra tática de construção da aliança campo-cidade, qual seja o diálogo sobre a alimentação saudável via cultura, comida e arte, o MPA cria o Raízes do Brasil, uma casa, que se constituiu como um local de reflexão e debate sobre a soberania alimentar (Teixeira & Palmeira, 2020, p. 1052).

A casa denominada Raízes do Brasil,4 localizada no bairro de Santa Teresa, está comemorando, em 2025, oito anos de funcionamento e a Cesta Camponesa, 10 anos. Neste ínterim, as entregas foram aumentando e se consolidando, assim como várias feiras pela cidade. Até que, no início de 2020, com a pandemia da Covid-19 muitas coisas mudaram. A necessidade de afastamento social exige que as cestas sejam enviadas aos domicílios e, para tanto, o Movimento cria uma parceria com uma cooperativa de táxi local. O número de pedidos também cresceu, exponencialmente, em meados de 2021, como desdobramento da situação pandêmica que “confinou” muitas pessoas em suas casas restringindo a ida a supermercados. Neste mesmo contexto, os camponeses seguiram na produção de alimentos e, inclusive, fizeram muitas ações de solidariedade, organizadas pelos movimentos sociais.

Preocupados com os impactos causados pela pandemia, de início o movimento lançou a campanha “#FiqueEmCasa, seguiremos produzindo seus alimentos!”, com o objetivo de distribuir cestas agroecológicas, produzidas pelos próprios agricultores e agricultoras do movimento, para famílias do Brasil inteiro em meio às medidas de isolamento social, fundamentais para amenizar a propagação do vírus. Outra campanha de caráter nacional desenvolvida pelo MPA é o ‘Mutirão Contra a Fome’ que se iniciou em abril de 2020 com ações de arrecadação e distribuição de alimentos a famílias em situação de insegurança alimentar e fome em todo o país. Através desta campanha, até 2021, 31 mil famílias foram beneficiadas e cerca de 1.100 toneladas de alimentos foram distribuídos pelo movimento em 13 Estados do país (Cabral et al., 2022, p. 14).

O trabalho político do “Mutirão Contra a Fome” no Rio de Janeiro ocorreu em diversos territórios de favelas. Ele se manteve no pós-pandemia, ainda que em menor número de comunidades.

No “espalhar das sementes”, outras parcerias foram se firmando, por exemplo, passou a contar com apoio de outro grupo de extensão, agora, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), denominado “Serviço Social e Movimentos Sociais: a atuação do MPA na favela da Mangueira em articulação com lideranças territoriais”. Com o retorno às atividades acadêmicas presenciais, o referido projeto passou a integrar a feira do campus da UERJ/Maracanã.

3. A prática extensionista na colheita da lavoura coletiva

Após a contribuição feita no início da feira e da Cesta Camponesa, nos últimos anos o projeto de Extensão “Poder Popular e Campesinato na América Latina: Memória, Arte e Resistência” tem entre suas tarefas extensionistas apoiar as ações de comercialização e distribuição de alimentos no espaço Raízes do Brasil, bem como atividades culturais e de comunicação/difusão da proposta agroecológica do movimento social. As/os estudantes que demandam vagas nas ações extensionistas passam por uma formação introdutória e depois por um grupo de estudos mensal para fazer as reflexões a partir dessa experiência concreta de ação junto ao movimento social camponês. Alguns têm contato incipiente com a agricultura, ainda que por seus antepassados; outros/as desconhecem completamente a dinâmica da vida e das relações no meio rural. Até por isso, a relevância da formação e do estudo junto às atividades práticas.

Contudo, um dos objetivos do Laboratório QADE/UFRJ é justamente trazer essas temáticas da agroecologia, soberania alimentar e combate à fome para dentro da universidade, em diversas áreas, não só para o Serviço Social. De modo que essa experiência estimule o segmento estudantil em sua visão de mundo e nas relações que estabelece com a sociedade, bem como produza movimentações internas na própria universidade. Nota-se que nos últimos anos, em decorrência do agravamento da crise climática, alguns dos temas trazidos pelo campesinato organizado têm tido mais ressonância no campo da pesquisa e da extensão universitárias. No caso da UFRJ, ela tem requisitado o registrado em seus sistemas institucionais das atividades de ensino que dialogam com os “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)” da Organização das Nações Unidas (ONU). Este é um exemplo das questões contemporâneas repercutindo na educação.

De acordo com o Ministério da Educação, em resolução do ano de 2018, a concepção e as diretrizes da extensão vão no seguinte sentido:

É possível afirmar que essa experiência extensionista tem caminhado neste sentido. Na UFRJ, existem cerca de quatro mil ações extensionistas, segundo a Pró-Reitoria. Nos parece que a decisão de tornar a extensão curricular, aprovada na ocasião do Plano Nacional de Educação (2014) e regulamentada pela resolução acima, vem produzindo frutos importantes. A despeito de ainda carecer de bastante “adubação”, fundamentalmente via financiamento adequado, para que as unidades de ensino superior possam ter os recursos materiais necessários a essa conexão com a comunidade externa e se envolvam efetivamente com as “questões complexas contemporâneas presentes no contexto social”, que são muitas. A interação dialógica, as trocas de saberes sem hierarquização nas relações, são um desafio permanente em uma sociedade capitalista em que o individualismo, a exploração econômica e todas as formas de opressão - especialmente, de raça e gênero - são absolutamente naturalizadas. A formação cidadã em determinadas áreas da universidade ainda carece de aprofundamento.

No caso da experiência aqui compartilhada, é significativo constatar que por meio da participação no projeto de extensão foi possível a/o estudante (e militante social) identificar as questões que mais aglutinam o campesinato no estado do Rio de Janeiro e, deste modo, corroborar sua dimensão político organizativa.

E aqui no Rio a gente viu que esse ponto em comum seria o que nós estamos chamando de agroecologia e abastecimento popular. Seria a parte de como organizar o processo da comercialização camponesa para chegar na cidade. Então, pensando organização camponesa, seria o ponto comum da classe. Mas, para os camponeses começarem a virar classe social, a pauta é a gente chegar na comunidade, com a produção agroecológica, a comercialização. É o vai fazer as pessoas pararem para escutar o MPA... Como é? E tem interesse pelo Movimento, pela forma de organização. Então esse foi o diagnóstico (Servolo & Botelho, 2022, p. 278).

A parceria da extensão universitária com o MPA segue na construção de um sistema popular de abastecimento e na organização do movimento social no estado, participando, inclusive, dos Encontros Estaduais organizados em 2019 e 2022.

Outra atividade já consolidada nessa parceria da extensão universitária e do movimento social camponês é a Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária (JURA). Uma iniciativa do MST que conta com a parceria de diversas universidades do Brasil, que ocorre anualmente, e leva para dentro da universidade temas relativos à reforma agrária popular, as lutas sociais do campesinato, denúncias, repressões e despejos, entre outros assuntos. Em 2025, a Jornada chegou à sua 12ª edição com o tema “Defender a vida, combater o agronegócio”. O evento se realiza com rodas de conversa, exibição de filmes, realização de feiras e dias de campo em acampamentos e/ou assentamentos do MST, buscando fazer essa troca efetiva entre os camponeses organizados e a comunidade acadêmica. O Laboratório Questão Agrária em Debate da ESS/UFRJ participa desta ação desde sua primeira edição. No Rio de Janeiro, a programação da JURA é construída em conjunto por docentes, estudantes e técnicos das universidades com o MST.

A extensão universitária é um canal fundamental de encontro da ciência com a sociedade, quando a primeira está a serviço da transformação social. É interessante como ela tem articulação com os camponeses em diversos países da América Latina. Novamente nos referenciaremos em Paulo Freire a partir de seu trabalho no Chile.5 Ali ele se referia à extensão rural ou à assistência técnica.

Ainda que não sejam sinônimos, é possível sua interpretação e problematização para processos semelhantes feitos na extensão e na pesquisa universitárias. Ele afirma que qualquer atuação técnica tem refrações de outras dimensões da existência humana e, logo, é inviável imaginar que haja uma educação neutra.

Em última análise, a reforma agrária, como um processo global, não pode limitar-se à ação unilateral no domínio das técnicas de produção, de comercialização, etc., mas, pelo contrário, deve unir êste esfôrço indispensável a outro igualmente imprescindível: o da transformação cultural, intencional, sistematizada, programada. (Freire, 1983, p. 39) [...]
Desafiado pela visão crítica da reforma agrária, o agrônomo tem que preocupar-se com algo que vai mais além de uma mera assistência técnica. Como agente da mudança, com os camponeses (agentes também), cabe a êle inserir-se no processo de transformação, conscientizando-os e conscientizando-se ao mesmo tempo. (Freire, 1983, p. 41) [...]
Eis aí, no processo da reforma agrária, o fazer fundamental do agrônomo: mais do que um técnico frio e distante, um educador que se compromete e se insere com os camponeses na transformação, como sujeito, com outros sujeitos (Freire, 1983, p. 42).

A assistência técnica, naquele caso, assim como os projetos de extensão e pesquisa contemporâneos, não se sustentam em uma dimensão única; eles refletem visões de mundo, são produtos das relações sociais capitalistas, por isso, expressam também interesses de classe. Pensando na formação acadêmica, a visão de Freire faz todo o sentido: o que se espera da interação entre professores, estudantes e a comunidade externa é um processo mútuo de cooperação, troca de saberes e de transformação cultural; poderíamos dizer também: mudanças subjetivas desses sujeitos. À medida que todos/as são sujeitos e agentes do processo, não há um ser passivo ou receptor, nem outro exclusivamente transmissor.

Daí que, para êste humanismo, não haja outro caminho senão a dialogicidade. Para ser autêntico só pode ser dialógico. E ser dialógico, para o humanismo verdadeiro, não é dizer-se descomprometidamente dialógico; é vivenciar o diálogo. Ser dialógico é não invadir, é não manipular, é não sloganizar. Ser dialógico é empenhar-se na transformação constante da realidade. Esta é a razão pela qual, sendo o diálogo o conteúdo da forma de ser própria à existência humana, está excluído de tôda relação na qual alguns homens sejam transformados em “sêres para outro” por homens que são falsos “sêres para si”. R que o diálogo não pode travar-se numa relação antagônica. O diálogo é o encontro amoroso dos homens que, mediatizados pelo mundo, o “pronunciam”, isto é, o transformam, e, transformando-o, o humanizam para a humanizaçâo de todos (Freire, 1983, p. 28).

Falando em humanização e transformação do mundo, é mister destacar o papel protagônico do campesinato na defesa dos bens e recursos naturais, em processos de resistência à expropriação e na preservação de saberes ancestrais que muitas vezes se antagonizam com a exploração capitalista da agricultura. Ainda que sejam bastante diversos em sua composição étnica, de gênero, formação cultural e possuam diferentes formas de relação com a posse da terra, é inegável o papel político exercido pelos movimentos sociais camponeses, dentro de sua diversidade, na América Latina. São absolutamente relevantes para o planeta as resistências indígenas e as demais resistências de povos originários à preservação dos seus territórios, das águas, das florestas. Assim como, apesar da incidência econômica e cultural do agronegócio, as populações campesinas que seguem reproduzindo seu modo de vida e de relação com a natureza que não colocam o lucro acima da vida.

Cabe destacar a organização internacionalista própria desse conjunto de trabalhadores aglutinados em torno da Via Campesina, organização esta que está presente em 81 países. Evidentemente, estes povos são agentes e sujeitos de sua própria história, como assinalou Paulo Freire e, muito têm a ensinar a técnicos, estudantes e educadores.

4. Extensão universitária e soberania alimentar

Sem poder aprofundar neste espaço toda a sua diversidade humana, econômica e política do campesinato brasileiro e, menos ainda, latino-americano, buscamos ilustrar a participação da extensão universitária no processo de criação do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) no estado do Rio de Janeiro, há pouco mais de uma década.

O Movimento dos Pequenos Agricultores nasceu no ano de 1996, como fruto da crise econômica e social na agricultura brasileira resultante da abertura neoliberal. Dos anos 90 e do esgotamento do movimento sindical de trabalhadores rurais. Como instrumento de representação e luta das camponesas e dos camponeses brasileiros. Ao longo desses 28 anos de luta, o MPA construiu um projeto de desenvolvimento para o campo: o Plano Camponês, que tem como fundamentos a afirmação do campesinato. E dos povos originários, como base para a produção de alimentos saudáveis por meio da agroecologia camponesa (Valle et al., 2024, p. 02).

Como mencionado pelas autoras, o MPA possui um documento em que está a síntese de seu programa político. Nele apresenta alguns eixos fundamentais de seus pressupostos com ênfase para a questão da terra e do território, onde se localiza a reforma agrária; a agroecologia como uma nova base produtiva para o campesinato; a ênfase na história desses povos, incluindo população tradicional e originária; o feminismo popular e camponês para construção de novas relações sociais e a defesa da biodiversidade hídrica, mineral, energética, alimentar e territorial compreendendo, deste modo, a proposição de soberania. Dentro de suas estratégias está a construção do poder popular em seus territórios e para além deles. Entendo que o movimento social, por meio de suas experiências concretas, pode produzir poder popular.

O território é resultado da luta de classes, produz e reproduz, material e imaterialmente, no dia a dia das populações a conflitualidade5 entre as classes, o domínio e a liberdade, a expropriação e a resistência. Neste sentido, o território representa e sintetiza a conflitualidade que se passa desde as distintas formas de apropriação da natureza, a distribuição da terra e dos bens comuns como água, biodiversidade, minerais entre outros até a luta travada nos espaços sociais, políticos, culturais e na comunicação (Silva et al., 2019, p. 85).

É no território que se materializam a conflitualidade dos interesses, a incidência do capital sobre os trabalhadores.

O capital busca dominar o território, seja através da sua monopolização, controle completo da terra integrado à indústria, seja pela territorialização do capital, quando subordina as unidades camponesas à agroindústria. Mas não somente isso; sobre essa base material se ergue todo um controle ideológico por meio da educação, da comunicação, da cultura, da religião, da governança entre outros espaços onde projetam seus objetivos e valores (Silva et al., 2019, p. 85).

Neste sentido, a proposta de um sistema de abastecimento popular, além da sobrevivência econômica do campesinato pela melhoria em seus rendimentos obtidos pela produção de alimentos, é estratégica para a obtenção de aliança com outros segmentos da população, como segmentos da classe média urbana. Seja, inicialmente, pela preocupação com a procedência saudável de sua comida até aqueles que já possuem afinidade com o programa político do movimento social.

A universidade pública e a ciência também são espaços em disputa. Não só as suas interpretações não são neutras, como isso se expressa desde a decisão sobre o que estudar, pesquisar ou fazer extensão, assim como, pode ser ilustrado pelos valores destinados ao financiamento entre as áreas de conhecimento. Quais são as áreas que mais recebem investimento público ou privado para a pesquisa? Por trás de um edital de pesquisa, há uma decisão política e ela, por sua vez, é resultado de correlações de forças.

5. Considerações finais

Neste texto, partimos de uma situação concreta de extensão universitária para estabelecer relações mais gerais com a educação no ensino superior, destacando seu papel, que pode ser relevante em processos formativos que contribuam para a transformação cultural de seus agentes e da realidade em que se inserem.

É importante ressaltar que as instituições educacionais e/ou científicas não estão desconectadas das relações sociais predominantes. Assim, se encontram submetidas, a lógica da sociedade capitalista, a seus condicionantes econômicos e socioculturais. As ações de seus membros serão também afetadas por seus componentes ideopolíticos e, portanto, direcionar ações de pesquisa e extensão em coparticipação dos movimentos sociais se localizará em um campo com menos financiamento, menos adeptos dentro das instituições e, inclusive, questionamentos sobre sua cientificidade.

Ainda que sob o domínio das relações capitalistas, há conjunturas mais favoráveis à pesquisa e a inovação no campo popular. No caso do Brasil, depois de mais meia década de retrocessos, em 2023, com o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao governo - por meio de uma frente ampla de forças políticas -, reabriram-se as possibilidades de apoio do governo federal à pesquisa e à extensão de base popular, ainda que sob as tensões provocadas pelo campo conservador de extrema-direita, presente no Congresso Nacional, no interior do próprio governo – em razão das suas amplíssimas alianças – e, de forma marcante, na sociedade brasileira.

Ainda assim, uma das expressões das “janelas abertas” são as tratativas da UFRJ com o MST para a oferta de um novo curso para estudantes originários de territórios organizados pelos movimentos camponeses, agora na área da engenharia da produção; a proposta está em elaboração junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).

Por fim, aqui se enfatizou a ação de um Laboratório de Extensão e Pesquisa em sua relação com o Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), mas cabe ressaltar que há outros projetos de extensão e pesquisa, em diferentes universidades públicas, que promovem a articulação de conhecimento acadêmico e saberes populares. A eles, vida longa!

Referências bibliográficas

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Notas

1 Os primeiros registro do PRONERA são de 1998 quando estava na Presidência da República Fernando Henrique Cardoso. Ele é fruto da reivindicação dos movimentos sociais, especialmente do MST, para ter uma no campo da educação um olhar específico para os povos do campo, inclusive, considerando os altos índices de analfabetismo entre essa população. Em 1999 se torna um programa e em 2001 é incorporado ao INCRA. Desde então foram realizados 545 cursos para 192.764 em todo o país, incluindo todos os níveis de ensino. (MDA, 2024).
2 O Laboratório QADE, desde 2012, trabalha em três projetos de extensão, sendo eles: “Assentados da Reforma Agrária e Universidade”, “Poder Popular e Campesinato na América Latina: Memória, Arte e Resistência” e “Conexão Campo e Cidade: Direito à Terra e a Soberania Alimentar”, sendo os dois últimos ainda ativos. Também produziu um curso de extensão, em 2021, chamado de “Diálogos entre Questão Agrária, Questão Social e Serviço Social” mais voltado aos profissionais assistentes sociais.
3 Para conhecer mais o espaço: https://raizesdobrasil.org.br/rj e Instagram @raizesdobrasil.rj
4 Sitio eletrônico atual: https://www.cestacamponesa.com.br/
5 Publicada originalmente em 1969 pelo Instituto de Capacitación e Investigación en Reforma Agrária, em Santiago de Chile, com o título “Extención o Comunicación?”.

Recepción: 8 octubre 2025

Aprobación: 28 abril 2026

Publicación: 1 agosto 2026



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