Mundo Agrario, abril - julio 2026, vol. 27, núm. 65, agosto-noviembre 2026, e332. ISSN 1515-5994Artículos
(Re)Estruturação de cidades em torno da cadeia produtiva: Feira Nova e a cadeia de farinha de mandioca
Resumo: Este estudo teve como objetivo evidenciar como a cidade brasileira de Feira Nova, em Pernambuco, se (re)estruturou em torno da cadeia produtiva da farinha de mandioca. Para tanto, buscou-se subsídios teóricos sobre cidades, cadeias produtivas e redes interorganizacionais. A metodologia adotada foi a pesquisa qualitativa, baseada em entrevistas, conversas informais, análise documental e de vídeos. Feira Nova surgiu em torno de uma pequena feira, que deu origem ao seu nome atual, e, desde então, grande parte da população sobrevivia da cultura da mandioca. Contudo, ao longo do tempo, esse setor produtivo entrou em decadência, o que evidenciou a necessidade de ações voltadas à sua revitalização, com vistas à sustentabilidade econômica local. Nesse contexto, observou-se a criação de uma cooperativa de produtores e a atuação de políticas públicas como estratégias centrais desse processo. Evidencia-se que a retomada do setor demanda a revitalização das práticas produtivas, apoiada em estudos e pesquisas aplicadas, tornando fundamental a aproximação entre os pequenos produtores e o conhecimento técnico-científico, bem como a criação de condições para que estes possam estruturar integralmente o ciclo produtivo, reduzindo a dependência de intermediários.
Palavras-chave: (Re)Estruturação de Cidades, Cadeia Produtiva, Redes Interorganizacionais, Mandiocultura.
(Re)Structuring Cities Around a Productive Chain: Feira Nova – Pernambuco, Brazil and the Cassava Flour Chain
Abstract: This study aimed to highlight how the Brazilian city of Feira Nova, in the state of Pernambuco, has (re)structured itself around the cassava flour production chain. To achieve this, theoretical foundations on cities, production chains, and interorganizational networks were explored. The methodology adopted was qualitative research, based on interviews, informal conversations, and the analysis of documents and videos. Feira Nova emerged around a small market, which gave rise to its current name, and since then, a large part of the population has relied on cassava cultivation for their livelihood. Over time, however, this productive sector declined, revealing the need for actions aimed at its revitalization to ensure local economic sustainability. In this context, the creation of a producers’ cooperative and the implementation of public policies were observed as central strategies in this process. The findings indicate that the recovery of the sector requires the revitalization of production practices supported by studies and applied research, making it essential to strengthen the connection between small producers and technical-scientific knowledge, as well as to create conditions that allow them to fully structure the production cycle, thereby reducing dependence on intermediaries.
Keywords: (Re)Structuring Cities, Productive Chain, Interorganizational Networks, Cassava Cultivation.
(Re)estructurando las ciudades en torno a una cadena productiva: Feira Nova y la cadena de la harina de mandioca
Resumen: Este estudio tuvo como objetivo destacar cómo Feira Nova se (re)estructuró en torno a la cadena productiva de la harina de mandioca. La investigación buscó apoyo teórico sobre ciudades, cadenas productivas y redes interorganizacionales. La metodología utilizada fue una investigación cualitativa, basada en entrevistas, conversaciones informales, documentos y análisis de videos. Feira Nova surgió en torno a un pequeño mercado, que dio origen a su nombre actual, con la mayor parte de la población en ese momento ya sobreviviendo del cultivo de mandioca. Sin embargo, hubo un declive en este sector productivo, lo que llevó a la necesidad de revitalización, vislumbrando la sostenibilidad económica. Para ello, se creó una cooperativa de productores junto con la intervención del gobierno. Es evidente que la reactivación del sector requiere un proceso de revitalización de las prácticas adoptadas, que involucra estudios e investigaciones. Por lo tanto, es necesario acercar la investigación a los pequeños productores y brindarles condiciones para cerrar el ciclo productivo, eliminando intermediarios.
Palabras clave: (Re)estructuración de ciudades, Cadena productiva, Redes interorganizacionales, Mandiocultura.
1. Introdução
As pequenas cidades refletem a realidade do território, destacando-se pela relevância para o desenvolvimento regional e para produção do espaço pela sociedade. Conforme as estimativas da Organização das Nações Unidas – ONU (2019) o percentual da população mundial que vive em áreas urbanas deve atingir 68% até 2050, atualmente, esse percentual está acima de 55%. Entretanto, grande parte dessa população urbana concentra-se nas pequenas e médias cidades, principalmente em países em desenvolvimento, ao qual, o processo de urbanização, é marcado pelo desequilíbrio estrutural, tecnológico e econômico (Cavalcante & Marquetti, 2026).
Ao longo do tempo, essas cidades experimentam mudanças que afetam indústrias, tecnologias e padrões de uso da terra, e assim, ajudam a formar as bases da economia local. O processo modernizador das pequenas e médias cidades, não se realiza de forma homogênea, contextualizando, assim, desigualdades sociais e econômicas que tendem a ficar evidentes em cidades pequenas. Compreender as pequenas cidades, requer, mais do que características demográficas ou dados estatísticos, exige uma visão analítica para interpretar as nuances que as cidades estão inseridas, os desafios e os enfrentamentos do poder público na dinâmica produtiva (Damiani, 2006; Silva et al., 2026).
A maioria dessas localidades sobrevive da geração de empregos na administração pública, em pequenas indústrias, no comércio local e no campo do trabalho braçal, sobretudo, em atividades agrícolas. Como a geração de emprego formal nessas áreas não consegue abarcar toda a população, existe uma grande concentração de pessoas em atividades informais, as quais permitem a geração de uma renda mínima. Muitas vezes, essa renda é agregada a auxílios governamentais, que possibilitam a sobrevivência de uma massa populacional significativa (Sales, 2019).
As vilas, as cidades e regiões economicamente flexíveis se adaptam às mudanças nas condições e até reinventam suas bases econômicas, se necessário. No entanto, as populações menores costumam ter mais dificuldade em se reinventar, quando na maioria das vezes dependem economicamente de um único ramo. Assim, entende-se que, muitas vezes, estas localidades não dispõem de infraestrutura, instalações e capital humano suficientes para enfrentar os desafios que eventualmente ocorrem (Environmental Protection Agency [EPA], 2015).
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE (2022), a cidade de Feira Nova está localizada no agreste Pernambucano, tem uma população estimada em 21.427 mil habitantes e 107 km² de área. De acordo com o Instituto Brasileiro de geografia e estatística - IBGE (2010) A principal atividade econômica era o cultivo da mandioca e a produção da sua farinha, tem-se ali uma ilustração de uma cidade pequena dependente de uma cadeia produtiva. Porém, conforme a Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco - AD Diper/ ADEPE (2018), o município parou de ser considerado um dos grandes produtores de Mandioca do estado de Pernambuco, devido ao enfraquecimento do interesse dos produtores no cultivo da mandioca.
Este trabalho teve como objetivo evidenciar como Feira Nova se (re)estruturou em torno da cadeia produtiva da farinha de mandioca. Para tanto, foram postos como objetivos específicos: a) reconstruir o processo histórico de estruturação daquele espaço em uma cidade; b) compreender o processo de reestruturação da cidade por meio da revitalização da cadeia da farinha de mandioca; c) evidenciar como a cadeia produtiva de farinha de mandioca se associa aos processos de estruturação e reestruturação de Feira Nova.
Entende-se que é válido desenvolver estudos que revelem essa relação de mutualidade entre cidades pequenas e um segmento produtivo, até para evidenciar a sustentabilidade (ou não) delas. Espera-se, assim, contribuir para o entendimento dos avanços e retrocessos na cadeia de farinha de mandioca em Feira Nova, e, por conseguinte, evidenciar questões que poderão ser aprimoradas pelos produtores e pelo setor público.
2. Cidades pequenas: uma breve discussão
Carlos (2007) afirma que a cidade é o produto, condição e meio das relações sociais humanas que ocorrem durante um processo histórico. Desse modo, as relações sociais de produção, desenvolvidas espaço temporalmente, não ocorrem de modo linear, estas estão vinculadas “ao movimento contraditório que não opõe processos velhos aos novos, o arcaico ao moderno, o centro à periferia, mas os realizam simultaneamente”, havendo, assim, rupturas e continuidades ao longo do tempo (Luquez, 2020, p. 5).
Na compreensão sobre o conceito de cidade, o primeiro aspecto que se destaca é o quantitativo, ou seja, o patamar mínimo e máximo de habitantes para a cidade ser considerada pequena, média, grande ou metrópole (Fernandes, 2018). Nas últimas décadas as pequenas cidades se tornaram grandes fontes de pesquisa, seu significado e representação social, econômica e cultural passaram a ser objeto de estudo no contexto da urbanização brasileira (Fresca, 2011; Sposito et al., 2013).
No entanto, Fernandes (2018) reitera que ainda é preciso avançar nessas discussões, pois existem grandes dificuldades em relação à diversidade dessas localidades gerando uma complexa confluência entre o urbano e rural. Nos últimos decênios, estratégias foram elaboradas em potencial mundial, a fim de impulsionar a renovação e desenvolvimento de pequenas e médias cidades. Ainda assim, a tendência se fixa, sobretudo, nas grandes metrópoles e não atesta a capacidade das cidades menores em se transformarem e avançarem por meio de novas nuances e perspectivas (Selada et al., 2012).
A reestruturação transmite a noção de uma ruptura com tendências seculares e de uma mudança em direção a uma ordem e uma configuração significativamente diferente da vida social, econômica e política. Logo, a intensificação da (re)estruturação produtiva, as cidades receberam demandas que possibilitaram o desenvolvimento de novas formas de organização, provocando mudanças positivas por meio da produção propriamente dita (Brenner, 2013; Fresca, 2011).
Nesse mesmo sentido, é possível entender que uma cidade pequena não se deriva a um aspecto generalizado de apenas fornecer bens e serviços básicos a uma área restrita de sua população. As cidades que reorganizam suas economias com sucesso envolvendo todas as partes interessadas, buscam garantir que os planos reflitam os desejos, necessidades e os objetivos da comunidade, para com isso, desenvolver uma visão para o futuro do povo (EPA, 2015).
Nesse sentido, assim como uma cadeia produtiva, as cidades precisam planejar todas as estratégias que serão utilizadas para que sua posição econômica seja a mais favorável e rentável. No entanto, obter uma posição favorável em cidades pequenas pode ser bem mais desafiador, pois elas têm menos possibilidades de atuação, diferente das cidades maiores que tendem a ter uma diversificação produtiva (Damiani, 2006).
3. Cadeias produtivas e redes interorganizacionais
O conceito de cadeia produtiva foi elaborado tendo por base a visão sistêmica. Por esse prisma, entende-se que a produção de bens pode ser representada como um sistema, no qual estão interconectados os fluxos de material, capital e informação. E com base nessas interconexões, a organização terá um indicativo do desempenho atual, possibilitando ou não a melhoria contínua (Durski, 2003). A inter-relação e interdependência entre as organizações da rede favorece o desenvolvimento de ações coletivas e estratégias que beneficiam todos os colaboradores. As cadeias produtivas no Brasil não diferem dessa realidade e, cada vez mais, as organizações irão depender da eficiência organizacional para elevar a vantagem competitiva (Lopes et al., 2004; Durski, 2003).
Conforme Bowersox, David y Bixby (2014), a sublimidade do desempenho de uma cadeia produtiva exige o cumprimento simultâneo de oito processos chave, quais sejam: (I) capacidade de resposta do planejamento da demanda; (II) colaboração no relacionamento com os clientes; (III) atendimento do pedido/prestação de serviços; (IV) lançamento de novos bens/serviços; (V) customização da manufatura; (VI) colaboração no relacionamento com os fornecedores; (VII) apoio ao ciclo de vida; e (VIII) logística reversa. Esses processos integrados são fundamentais para a excelência no desempenho. Assim, a gestão de uma cadeia produtiva procura identificar e alcançar um menor custo total equilibrando os trade-offs (conflito de escolhas) que existem entre e dentre esses processos.
A denominação “redes” pode e é usada em diferentes contextos, possuindo vários significados e aplicações. Castells (1999) define rede como um conjunto de nós que se comunicam e estão conectados entre si de maneiras internas, assim, é válido que o termo seja utilizado em diversas áreas. Esse tema é crescente e proporcional em importância, principalmente, na vida econômica, pois facilita a complexa interdependência de trocas e cooperação entre organizações.
Nesse campo extenso, as teorias sobre estratégia foram utilizadas para entender como essas relações vão impactar nas estratégias atuais das organizações, buscando compreender como os resultados afetam a posição estratégica e vantagem competitiva destas (Balestrin & Vargas, 2002). As parcerias organizacionais são mecanismos para o desenvolvimento de habilidades organizacionais coletivas, como por exemplo, redes produtivas, que possibilitam a partilha de recursos e capacidades organizacionais, contribuindo para o desenvolvimento e benefício mútuos (Quatrin & Pereira, 2017; Cardoso et al., 2025).
As redes interorganizacionais evidenciam as conexões e compartilhamento de recursos, visando alcançar as metas coletivas das organizações, além de, facilitar a cooperação entre si. Portanto, essas redes organizacionais, possibilitam que as organizações mantenham sua autonomia, durante o período que colaborarem para obter os resultados e objetivos comuns, reforçando as ações conjuntas, enquanto, desenvolvem sua interdependência (Van de Ven, 1976; Klein et al., 2019).
Para um melhor entendimento sobre a diversidade das redes, Balestrin y Vargas (2002) apresentaram um gráfico chamado mapa de orientação conceitual, indicando, a partir de quatro quadrantes, as principais dimensões sob as quais as redes são estruturadas. Logo, com o mapa, bem como as evidências de outros estudos, as redes podem ser amplamente classificadas como: verticais (hierárquicas); horizontais (cooperação); formais; e informais, como pode ser observado na Figura 1.

As redes interorganizacionais englobam as rede horizontal e redes verticais. As redes horizontais auxiliam na promoção da cooperação e colaboração das empresas do mesmo setor, enquanto, as redes verticais conectam a cadeia produtiva, auxiliando na capacidade e eficiência de recursos, tendo em vista que, as redes organizacionais permitem a superação das limitações estruturais e o desenvolvimento das competências (Gulati & Gargiulo, 1999; Mesquita & Lazzarini, 2008).
As quatros dimensões das redes organizacionais de acordo com Balestrin & Vargas (2002): Hierarquia, cooperação, redes formais e redes informais. Na hierarquia, geralmente as relações são exemplificadas pelos vinculos estabelecidos entre matriz/filial, sendo que essas possuem pouca autonomia jurídica e de gestão e respondem àquelas, isso também acontece em casos de subcontratação quando uma organização é dominante na relação. Em relação a cooperação, as redes se formam sob a dimensão da cooperação entre seus membros, os quais escolhem a formalização flexível para melhor adaptar-se, devido a maleabilidade da relação.
Nas dimensões de redes formais, há a formalização por meio de termos contratuais, que estabelecem as regras de conduta entre os participantes. No que diz respeito, as redes informais, são formadas sem qualquer tipo de contrato estabelecendo regras, agem em conformidade com os interesses mútuos a alcançar, os quais são baseados, sobretudo, na confiança entre os envolvidos (Balestrin & Vargas, 2002).
Ao interpretar estudos sobre redes observa-se que elas tendem a ficar dentro desses quadrantes (Figura 1), mas sempre estão envolvendo dois elos ao mesmo tempo. Desse modo, a formação e desempenho de uma rede dependerá de dois atributos fundamentais: a conectividade e a coerência, fazendo com que haja comunicação direta e compartilhamento de objetivos e interesses entre os envolvidos (Castells, 1999; Cardoso et al., 2025).
Na nova configuração do ambiente de negócios as organizações tendem a estabelecer redes de alguma natureza e isso influi na configuração das cadeias produtivas, por isso é importante entender a natureza destas. A lacuna na literatura evidencia a necessidades de aprofundar os estudos na investigação de redes organizacionais que integrem e ajudem em ambientes desafiadores (Bablak, 2007; Laimer, 2015).
4. Aspectos metodológicos
A questão que despertou o interesse pela temática pode ser posta da seguinte forma: ‘Feira Nova: Terra da Farinha, como se chegou a essa denominação?’. Tal questionamento causou uma inquietação sobre como a cidade mais nova de Pernambuco foi construída e como a cultura da mandioca se tornou o pivô desse processo. Tendo por base essa questão, buscou-se mais informações sobre o contexto enfocado, o que evidenciou que havia ali uma lacuna a ser investigada. Para tanto, foi desenvolvida essa investigação que teve como abordagem metodológica norteadora a pesquisa qualitativa.
As técnicas utilizadas na coleta de dados de uma investigação são resultantes da perspectiva teórica adotada pelo pesquisador, do problema, do objetivo da pesquisa e da amostra selecionada (Merriam, 2009, p. 86). Dados qualitativos são obtidos por meio de informações fragmentadas encontradas no ambiente. Na coleta dessas informações, podem ser utilizadas entrevistas, observações e análises de documentos (Patton, 2002). Diante das escolhas feitas para o desenvolvimento deste estudo, bem como dos propósitos que se almeja atender, adotou-se como estratégias de coleta de dados a entrevista semiestruturada, a observação não participante, a análise de documentos e as conversas informais.
A coleta de dados iniciou-se por meio da pesquisa documental, utilizando- se documentos de livre acesso disponíveis na internet, tais como vídeos e documentários. Essa pesquisa exploratória inicial propiciou o embasamento necessário para a construção dos instrumentos necessários para realização de entrevistas e observações, bem como direcionou o olhar para o Centro da Cooperativa de Produtores de Farinha de Feira Nova (COOPFFEN).
A partir de uma conversa formal com o coordenador e administrador da cooperativa foi agendada uma entrevista. A ideia central foi compreender o funcionamento da cooperativa e sua relação com o desenvolvimento da cidade. A entrevista aconteceu no galpão onde está localizada a sede da cooperativa durante o horário de funcionamento da mesma. A ideia foi colocar questionamentos mais abrangentes e relativamente abertos no que se refere à cadeia produtiva da farinha e o acompanhamento da cooperativa em relação às estratégias de (re)estruturação da cidade. Na ocasião foi possível realizar algumas observações que constam em diário de campo.
O conteúdo desta entrevista mostrou que havia mais a ser explorado, sobretudo no concernente à reestruturação que a cidade vem vivenciando. Assim, para dar continuidade ao estudo, foi desenvolvido um trabalho de imersão, o qual visou aprimorar o entendimento dos meios utilizados nessa reestruturação. A melhor forma de fazer essa imersão e obter mais informações foi a participação da festa da farinha, tradicional evento anual que é utilizado para divulgação e inclusão das pessoas na cultura na cidade.
Além disso, uma das pesquisadoras participou de algumas das atividades, a fim de ter uma participação ativa e, assim, pautar sua interpretação sobre o fenômeno em estudo. Aproveitando o ensejo, ela desenvolveu algumas conversas informais com os palestrantes, a fim de sanar algumas dúvidas e obter o máximo de informações. Além disso, para ter um melhor entendimento sobre o funcionamento da COOPFFEN, seu alcance e contribuição na festa anual da farinha, foram realizadas várias conversas com os responsáveis por variadas atividades na festa e também com alguns participantes do evento. Essas informações também geraram notas que constam em diário de campo, as quais foram discutidas com os demais envolvidos na realização da pesquisa, para fins de avaliação e validação por pares.
5. Feira Nova – Terra Da Farinha
5.1. Estruturação: Nasce uma feira e uma cidade
A estrutura de uma cidade pode ser analisada sob a ótica de aspectos diversos e pela lente de múltiplos campos teóricos. Cada cidade é caracterizada por um conjunto de processos históricos, sociais, políticos e econômicos; que ao mesmo tempo em que as assemelham as diferenciam (Costa, 2013). As diferenças entre os tipos de cidades levam em consideração o cuidado que se deve ter nos estudos a serem realizados. Corrêa (2011) advoga que, em muitos casos, as cidades são constituídas por núcleos de povoamento dedicados essencialmente às atividades agrárias, sendo esse o caso de Feira Nova.
Segundo dados da Prefeitura Municipal de Feira Nova (2023), por volta de 1906, quando a região, que hoje constitui Feira Nova, era parte constituinte do município de Paudalho, um cidadão conhecido como Joaquim Botelho, instalou por ali uma bodega (Figura 2) e viu surgir a sua volta, uma povoação, a qual foi denominada Jardim. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (2023), as primeiras estradas de terra que cruzavam o território serviam ao trânsito de gado entre Limoeiro e Vitória de Santo Antão.
O povoamento inicial deu-se pela ocupação por lavradores que se dedicavam à agricultura de subsistência de modo rudimentar. Com a ajuda de outros moradores, Joaquim Botelho resolveu fundar uma feira aos domingos. O tempo foi passando e a feira foi crescendo e passou a ser frequentada pelos moradores da circunvizinhança. Em 1928 um distrito pertencente à cidade de Paudalho chamado Glória do Goitá foi elevado a município. Com isso Jardim foi elevado à categoria de distrito e passou a ser parte de Glória do Goitá e não mais de Paudalho (Prefeitura Municipal de Feira Nova, 2023).
Passado algum tempo, o povoado cresceu em função da "feirinha" e como em Glória do Goitá já havia uma feira antiga e tradicional, os habitantes ao dizerem que iriam para a feira de Joaquim Botelho, diziam ir para a feira nova. A denominação de Jardim só veio a ser mudada para Feira Nova em 1938, na época, o povoado, ainda, continuava a ser distrito de Glória do Goitá (Base de dados do Estado, 2006). A cidade foi ganhando forma quando da criação de pequenas escolas, conhecidas como “mínimas rurais”, nas quais as moradoras da cidade lecionam matérias básicas. Com o crescimento elas evoluíram e, a partir de negociações políticas, se tornaram as escolas do município, muitas delas estão em funcionamento até hoje (Mavo Digital, 2014, Lemos, 2025).
Segundo a Base de Dados do Estado (2006) em 20 de dezembro de 1963, por meio da Lei Estadual nº 4.945, consolidou-se a criação do município. Desmembrado de Glória do Goitá, o povoado elevou a sua sede à categoria de cidade, a qual seria chamada de Feira Nova, em 08 de março de 1964. O primeiro prefeito democrático da cidade, eleito em 1965, foi o senhor João Severiano da Rocha, o qual não está mais entre nós.
Segundo Mavo Digital (2014), o conhecido João Rocha afirmou ter iniciado seu mandato com a construção do primeiro matadouro, no final do primeiro ano de seu mandato. Logo depois criou e fundou o hospital municipal, batizado com o nome da sua mãe, Josefa Eusébia da Rocha, que faleceu ao dar à luz. Em seguida foi criada uma galeria, na qual os feiranovenses (denominação dada aos nascidos e residentes no município) dispunham de acesso a vários serviços. E, somente, ao final de seu mandato foi fundada a prefeitura municipal. Todas essas criações existem até hoje e são base cultural e econômica para os moradores. Com essa estrutura inicial, nascia ali uma cidade que requer sustentação econômica.
5.2. Ascensão e Queda da Cultura da Mandioca
A fabricação e o consumo, no Brasil, chegam a colocar a produção de farinha de mandioca (também conhecida como aipim) em uma posição de relevância, no entanto os mesmos sistemas e métodos de produção ainda são semelhantes aos utilizados no período colonial (Pacheco, 2017), minando a produtividade da cadeia. Considerada ‘prima pobre’ do açúcar, por seu destino final ser, em sua maioria, a subsistência interna, a produção de farinha sempre foi colocada como cultura complementar ao engenho. Seu uso era direcionado a alimentação dos trabalhadores do engenho, sobretudo aqueles do canavial, e aos pequenos produtores de subsistência, enquanto o açúcar era um produto muito valorizado (Araújo, 2015). Mesmo assim, a cultura da mandioca passa a ser uma alternativa em regiões em que a cana-de-açúcar não era focal, visto que, depois desta, aquela era a cultura que mais produzia calorias por área cultivada (Silveira & Freitas, 2007).
A mandiocultura normalmente ocupa solos de baixa fertilidade e mesmo nessas condições obtém níveis de produtividade considerados razoáveis. Isso ocorre porque fatores morfológicos e fisiológicos da mandioca são atributos que permitem a adaptação a condições variadas de clima e solo, proporcionando-a destaque entre as culturas de interesse econômico para ampla distribuição (Alves et al., 2020). Devido a essas particularidades, ela é comumente cultivada por pequenos agricultores, em áreas menos favorecidas. A cultura da Farinha de mandioca, conforme Pacheco (2017), emprega, na maioria dos casos, trabalhadores com baixa escolaridade, visto que essa condição os impossibilita de acessar postos que exigem formação e qualificação profissional mais elevada.
A Professora Marinalva Aguiar em entrevista para Santos (2018), afirmou que um senhor, chamado José Barbosa, era conhecido pelos primeiros trabalhadores daquela região [refere-se a área que hoje constitui Feira Nova] como ‘o pai da pobreza’, tendo em vista que, a pobreza e a extrema pobreza era a realidade da população daquela região, pois por meio dele as casas de farinhas se tornaram possíveis e se constituíram enquanto a única alternativa econômica para os residentes daquela localidade. Assim, a cultura da farinha da mandioca, iniciou- se com os produtores rurais que achavam ali uma oportunidade para subsistência, tornando-a a fonte de renda de suas famílias.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2017), no início do ano 2000 existiam, em Feira Nova, mais de 250 plantações de mandioca, produzindo aproximadamente 470 toneladas do produto. Na época havia 43 casas de farinha instaladas no município. Por ser aquela área uma tradicional produtora de mandioca no estado de Pernambuco e por esta cultura ter uma importante representatividade econômica, ao ser a atividade geradora de emprego e renda, Feira Nova adquiriu o título de ‘Terra da Farinha’.
No entanto, o município chamado de ‘terra da farinha’, perdeu competitividade e deixou de ser o maior produtor do estado por causa de alguns fatores, como: seca, podridão radicular (doença que acomete o solo e afeta a produtividade da mandioca) e falta de investimentos em otimização produtiva. Estudos evidenciam que a área plantada da cultura foi sendo reduzida drasticamente entre 2008 e 2009. Um dos maiores pivôs para essa redução foi o alto custo de produção. Esse custo resultou em um produto final com precificação abaixo do que seria viável para que houvesse margem de lucro suficiente e, por conseguinte, resultou em redução no volume de capital para reinvestimento em melhorias nos processos (Maker Mídia, 2018). Tudo isso enfraqueceu essa cadeia produtiva.
Entre os anos de 2010 e 2016, a produção de mandioca no Nordeste diminuiu quase 30%. Em Pernambuco a produção caiu pela metade, saindo de 66 mil toneladas para 31 mil. Com a seca, o Nordeste teve sua área de plantio afetada, sem matéria-prima na vizinhança, as casas de farinha tiveram que fechar as portas e aquelas que seguiram na produção precisaram ‘importar’ mandioca do Sudeste do país (Guarda, 2016). A cidade de Feira Nova “processava mandioca de Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte, no entanto com o passar dos anos cada local foi evoluindo e inovando; investimentos foram feitos e a cidade ficou para trás nessa corrida de mercado, principalmente após o período de seca” (Guarda, 2016). A produção da mandioca é proporcional ao volume de chuva no seu ciclo produtivo, assim, os longos períodos de estiagem fizeram com que as plantações na região de Feira Nova fossem reduzidas e os produtores precisaram buscar alternativas para manter seu sustento (Dantas, 2018).
Segundo informações do coordenador da COOPFFEN atualmente apenas três casas de farinha continuam em funcionamento, sendo que, eventualmente, quando o preço da farinha aumenta algumas daquelas que estão desativadas voltam a moer, ou seja, são postas em funcionamento temporário. Vasconcelos (2016) advoga que, de acordo com a avaliação de produtores do setor e da região, é preciso que haja incentivo para a retomada da produção e que a estiagem não é a principal preocupação no momento. Os longos períodos de seca ocasionaram aumento na proliferação das pragas, como a podridão radicular, que se instalaram no solo e contribuíram fortemente para a decadência do setor.
Além dos fatores mencionados, diante do cenário de baixa produtividade do segmento, os produtores não tinham capital suficiente para comprar alguns equipamentos necessários à revitalização do setor, como máquinas de empacotamento. Em virtude da falta de tal máquina, eles acabaram tendo que terceirizar o serviço de empacotamento para outras organizações, gerando custos que sofrem oscilações. Some-se a isso o fato de que empacotamento é um processo de beneficiamento em um produto padronizado, sendo uma possível forma de diferenciação e essa terceirização faz com que o produtor perca essa oportunidade. Esse cenário requer uma revitalização do setor, sobretudo, tendo em vista a dependência econômica existente entre Feira Nova e essa cadeia produtiva.
5.3. Reestruturação
O nicho de mercado que vem crescendo, em todo o Brasil, é o dos produtos minimamente processados, sendo a mandioca um desses (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, 2003). Com o intuito de organizar toda essa situação, em prol da reestruturação econômica da cidade de Feira Nova, houve a criação de uma cooperativa de produtores da cultura da farinha de mandioca. A cooperativa foi constituída dia 13 de agosto de 2018, por meio de uma assembleia geral, para a qual foram convidadas as pessoas que se relacionam com atividades ligadas à cultura da mandioca. No total 23 (vinte e três) pessoas assinaram a ata de presença e cada uma se propôs a assumir determinado cargo para constituição da cooperativa. Os cargos foram estruturados em diretoria administrativa (presidente, vice-presidente e diretor financeiro titular, com seus respectivos suplentes) e conselho fiscal, composto por titulares e suplentes. No dia 26 de setembro do mesmo ano a cooperativa ‘nasceu’ com a liberação do seu Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas – CNPJ.
Uma rede cooperativa se estabelece quando há o reconhecimento de desafios semelhantes, fundamentando o propósito pelo qual irá operar, contudo, a sua persistência está ligada à sua habilidade de alcançar os objetivos inicialmente delineados. Nesse contexto, a seleção da estratégia cooperativa molda o sistema de governança desse arranjo interorganizacional, sendo responsabilidade dos participantes determinar a estrutura e as normas de funcionamento que irão conduzir até o resultado mais eficaz (Wegner, 2012, p. 2017).
Conforme Provan y Kenis (2008), existem alguns modelos básicos de governança em rede, dos quais podem surgir várias combinações. Cada modelo é utilizado por diferentes motivos e possui as próprias vantagens e desvantagens, de maneira que depende de um número de condições, tais como, características dos participantes e ambiente de negócios. Nesse sentido, reafirma-se que uma cooperativa não visa ao lucro como uma organização empresarial, ela visa o bem-estar do cooperado, mas, é necessário que se pague um preço justo pelo produto e/ou serviço, considerando, para tanto, todos os custos advindos do processo produtivo e administrativo, incluindo a sustentação da própria cooperativa. Além disso, se faz necessário ter recurso para reinvestimento, pois nenhum ambiente de negócios pode se sustentar sem que haja investimentos em otimizações e inovações nos processos.
O objetivo da cooperativa de produtores de Feira Nova é buscar e disponibilizar possibilidades e alternativas para as dificuldades encontradas pelos produtores, sobretudo no escoamento da produção. Sejam estas por meio de parcerias, consultorias e/ou trazendo profissionais que agreguem valor, tudo focado no intuito de produzir com alta qualidade os derivados da mandioca (Planalto, 2018). O coordenador da cooperativa afirmou que todo processo produtivo é conhecido pelos produtores, conhecimento esse advindo da prática, muitas vezes hereditária. A dificuldade seria justamente fazer com que o produto chegue ao consumidor, sem o uso de terceirizados (empacotadoras, atravessadores), pois estes influem diretamente na formação de preço e definindo a distribuição de valor dentro da cadeia.
5.3.1. Sou Feira Nova, Sou Terra da Farinha
Com o intuito a solucionar ou reduzir a paralisação e o encurtamento da cadeia produtiva de derivados da mandioca, a gestão municipal em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE, Instituto Agronômico de Pernambuco), IPA e Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (AD Diper), criaram o programa “Sou Feira Nova, Sou terra da farinha”, sendo este associado a cooperativa. A ideia do projeto surgiu a partir da necessidade dos produtores, os quais observaram a perda da produtividade da mandioca e seus derivados e viram sua fonte de renda se esvair. Nesse contexto visualiza-se um aumento da demanda populacional por emprego e renda, sendo estimado que a retomada da cultura de mandioca empregaria mais de 500 moradores da cidade de forma direta (Maker Mídia, 2018).
O SEBRAE interviu oferecendo treinamentos, consultorias e palestras em várias áreas, sendo para tanto utilizado o espaço da festa da farinha, evento anual existente na cidade, para a realização dessas ações. O coordenador da cooperativa afirmou que essa ação do SEBRAE trouxe oportunidades ao fazer os cooperados despertarem para a correção de erros que eram cometidos e isso permitiu a busca por melhoramento contínuo nos processos. Contudo, não se alcançou todo o progresso esperado, havendo um ponto a ser trabalhado no que concerne a participação dos cooperados, visto que estes deveriam praticar o que foi aprendido a partir das informações advindas dos profissionais do SEBRAE, mas sentem dificuldade em mudar ou não se sentem à vontade com a mudança. Reafirmando, assim, que a transferência de conhecimento é um dos maiores desafios enfrentados pelas organizações e está se torna ainda mais complicada quando os atores focais estão dispersos (Kerzner, 2017) e este é o caso de pequenos produtores rurais, sendo um dos papéis da cooperativa proporcionar essa integração. Contudo, isso não quer dizer que seja impossível fazer essa transferência, na verdade a informação obtida é que não são todos os cooperados que estão estagnados em um pensamento produtivo, pelo contrário, há sim um olhar inovador por parte da maioria dos produtores, os quais estão em busca de fazerem as mudanças necessárias e aplicarem os conhecimentos apreendidos. Isso evidencia o quão necessário são os processos de requalificação e treinamento para pequenos produtores rurais, sem deixar de reconhecer as expertises existentes e a cultura da região.
No que concerne à podridão radicular, praga que influencia diretamente na produtividade esperada, uma pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (2003), estimou que as plantações de mandioca nos locais acometidos por esta praga teriam uma redução de produtividade média de 30%. No entanto, em alguns casos chega-se à perda total da produção, isso acontece, sobretudo, em localidades onde a produção é conduzida sem aplicação de práticas adequadas para o cultivo daquele espécime e/ou quando do uso de variedades mais suscetíveis a esse tipo de praga. Este é um dos maiores problemas e, talvez, seja o maior entrave à produção de mandioca na região em estudo. A parceria com o IPA e a AD Diper propiciou investimentos e o desenvolvimento de alguns estudos relativos a isso.
É válido salientar que o primeiro passo para obter uma lavoura de mandioca de sucesso é o uso de mudas de maniva (matéria-prima para plantio da mandioca) de boa qualidade. A qualidade afeta diretamente a capacidade de brotação, o enraizamento e a resistência a doenças da futura lavoura. Sendo assim, para obtenção das mudas é necessário selecionar plantas com excelentes características de acordo com o Centro da Cooperativa de Produtores de Farinha de Feira Nova. A partir de uma investigação inicial, alguns experimentos foram feitos resultando na proposição, dentro do escopo do projeto, da criação de um maniveiro (sistema de produção de manivas em multiplicação). Este, se implementado, será um local destinado ao desenvolvimento e multiplicação de uma maniva com qualidade e resistência a esse tipo de praga. Ou seja, a ideia é desenvolver uma maniva adequada a região e resistente a praga, garantindo, assim, uma produtividade maior. Isso deverá ser acompanhado de um sistema de manejo adequado, por isso a intervenção do SEBRAE trabalha nessa direção. Tudo isso focado na redução de custos por manejo ou cultivo inadequado e na minimização dos impactos de uma possível praga.
Um outro ponto nodal era a comercialização e distribuição do produto. Como a cadeia foi rompida a ponto de não haver nem o suprimento para o mercado local, abrindo assim para a concorrência, a recolocação está sendo iniciada pelo varejo no próprio município. A ideia é começar com o local, pois, como afirma Carvalho (2019), em um mercado tão fechado, a comunicação está fortemente associada ao sucesso ou fracasso da expansão do mercado em uma região. Assim, é válido ressaltar que uma das maiores parcerias feitas foi a disponibilização do produto para a marca turquesa que já é conhecida e estabelecida na região Nordeste, distribuindo o produto para seis estados brasileiros. Não seria viável partir para outros cenários antes de voltar a fidelizar o mercado local e estabelecer essa parceria com uma organização estabelecida em um mercado é uma estratégia de crescimento de mercado. A consolidação dessas ações pode ser a forma mais viável de voltar a ter competitividade.
Percebendo a grande necessidade de intervenção na realidade em estudo, as organizações envolvidas nesse processo perceberam que o projeto Sou Feira Nova, Sou terra da Farinha, não poderia ser encerrado em apenas um ciclo. Foi visto que o acompanhamento deveria ser constante para o oferecimento de um nível de qualidade aos produtos gerados atrelando a manutenção das características culturais daquela localidade. Para tanto, as instituições que iniciaram a intervenção resolveram que deveriam integrar esse projeto a algo já consolidado na cidade.
E, assim, o projeto foi associado e divulgado juntamente com a tradicional festa da farinha, a qual ocorre todo ano em comemoração à emancipação da cidade. Na festa existe a intenção de promover e divulgar os produtos, mostrando a cultura e os resultados do trabalho dos moradores locais. Com a associação da cooperativa, a festa é utilizada como uma plataforma de marketing para que os produtores possam ter a chance de mostrar os avanços daquele ciclo produtivo. A festa passou a ser um holofote para divulgação do trabalho local, a fim de que a população entenda e perceba que a mandioca é um produto riquíssimo em possibilidades, não apenas para farinha.
5.3.2. Festa da Farinha
A festa da Farinha é realizada na última semana de setembro e sempre foi utilizada como um momento de lazer e diversão para os cidadãos, mas também para alavancar os produtos da terra, a fim de enaltecer as questões locais. Nos anos de 2018 e 2019, como haviam as parcerias estabelecidas com os órgãos e instituições e como resultante o projeto ‘Sou Feira Nova, Sou terra da farinha’, foram oferecidas algumas atividades focadas na revitalização da cadeia de mandioca. Usando o ambiente da festa foram oferecidos, pelo SEBRAE, alguns treinamentos, consultorias e palestras nas áreas de associativismo, empreendedorismo, gestão financeira, contabilidade, gerenciamento fiscal, tributação, administração, negociação, comercialização, estocagem, marketing e qualidade.
Em 2019, quando da coleta de dados, houve palestras sobre: venda direta no campo - tratou de mostrar quais são os canais de vendas existentes e dificuldades encontradas na colocação dos produtos diretamente ao consumidor, eliminando os intermediários e diminuindo o custo final do produto; comercialização e panorama da Mandiocultura em Pernambuco - tratou dos modos de comercialização dos produtos derivados da mandioca, ressaltando as mais variadas dificuldades encontradas nesse panorama; ração para ruminantes - mostrou a utilização dos restos da produção de mandioca, como a manipueira, demonstrando para os produtores do campo mais uma fonte de renda derivada da mandioca; e Biopolímero - mostrou avanços e pontos positivos para a utilização da mandioca (matéria-prima renovável, de fonte biológica e baixo custo) na produção de biopolímero, cuja degradação ocorre entre 6 e 12 meses, a depender do ambiente. Essa palestra sobre biopolímero foi a mais inovadora, na concepção dos presentes, pois trouxe informações sobre algo, na visão deles, impossível. Esse estudo sobre o biopolímero foi associado a uma pesquisa realizada por estudantes da Escola de Referência do Ensino Médio Professora Marilene Chaves de Santana – EREMPMS para desenvolvimento de protótipos de bioplástico.
Para além das palestras, em 2019, os organizadores criaram uma arena gastronômica, que buscou a participação dos munícipes para demonstrar receitas com a utilização da mandioca e seus derivados. A mandioca passa por diversos processos até finalmente transformar-se na farinha, que pode ser utilizada de diversas formas na culinária. Além disso, também é possível utilizar a massa antes de ser transformada em farinha e a goma que dá origem a nossa tão famosa tapioca, sendo também utilizada nos últimos anos para fazer a crepioca. A arena gastronômica foi avaliada por juízes e pelos participantes da feira, a fim de possibilitar a criação de um livro de receitas. No último dia do evento, ocorreu a finalização da arena gastronômica, a qual foi encerrada com o prefeito assinando um termo para a inicialização do livro, cujo lançamento estava previsto para a próxima festa. Neste evento era perceptível o brilho nos olhos dos que estavam presentes, principalmente, os produtores que puderam ver que o uso da mandioca pode ser aprimorado e ir muito além da farinha.
No ano de 2020, por conta do COVID-19, a festa foi realizada de forma
online e foi focada em entretenimento devido a situação de pandemia vivenciada. O evento contou com uma programação diferente, focada mais em shows e foi transmitida pelo youtube no canal TV Feira Nova1. Devido às circunstâncias especiais deste ano não foi possível dar andamento ao projeto e fazer o lançamento do livro. Espera-se que quando as coisas se normalizarem essas propostas sejam retomadas e que a revitalização do setor seja continuada. Até porque pelo que foi visto há uma boa recepção aos novos processos relativos à otimização da cadeia e houve um investimento substancial.
6. Considerações finais
Feira Nova surge a partir de uma cadeia produtiva, que se forma em torno de uma pequena feira, a qual deu origem ao seu nome. A maioria da população na época de sua criação já sobrevivia da cultura da mandioca. No entanto, com o passar dos anos houve uma decadência nesse setor produtivo, o que levou a uma necessidade de revitalização, sobretudo, por ser este, a fonte de renda da maioria da população. Com isso houve uma intervenção na cidade, por meio de uma parceria, com órgãos e instituições governamentais, focada em revitalizar o setor. Essa intervenção surge a partir da criação da cooperativa de produtores de farinha da cidade.
Diante de todos os fatores observados e apontados por esta pesquisa percebe-se que as parcerias desenvolvidas estão auxiliando na reestruturação do setor e na reconstrução da cultura local. Essa retomada cultural e econômica ocorre de forma lenta, mas visualiza-se a geração de possibilidades e criação de expectativas, o que gera ânimo para os produtores e para a população em geral. É perceptível que a atividade cooperativista ainda precisa ser reforçada dentro da própria cooperativa, visto que segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (2023), uma das premissas de uma cooperativa é a ação conjunta, voluntária e objetiva para coordenação das atividades.
Sendo possível ter o entendimento de que a configuração em rede pode facilitar o alcance dos objetivos estratégicos que de outra forma seria difícil de serem alcançados se a atuação fosse isolada. A rede é cooperada, mas formal nas parcerias e informal com as pessoas da cidade e partícipes da feira. Identifica-se, assim, uma configuração de rede particular, proporcionando uma compreensão mais clara e vasta diversidade de tipologias de redes interorganizacionais existentes. Isso porque o estudo evidencia que não necessariamente ela se manifestará apenas como formal ou informal, neste caso em específico quando nos referimos a uma rede cooperativa.
Um fato que precisa ser salientado é que a retomada de setores produtivos como o estudado requer um processo de revitalização das práticas adotadas, o que envolve estudos e pesquisas. Este trabalho deixa claro a necessidade de trazer as pesquisas científicas, em geral realizadas por instituições que têm estrutura e pessoal para desenvolvê-las, para aplicação no campo, sem, contudo, esquecer que os produtores têm muita expertise da vivência no setor e da cultura local e isso precisa ser levado em consideração. Assim, entende-se que se faz necessário aproximar as pesquisas e os pequenos produtores e fornecer condições para que eles possam fechar o ciclo eliminando intermediários do processo. Nesse sentido, este estudo nos impulsiona a registrar estas experiências e tirar do anonimato estruturas materiais e personagens essenciais para a construção/reconstrução de um processo histórico em torno de uma cadeia produtiva.
As estratégias de escoamento do produto final utilizadas a partir da intervenção não estão dando o retorno esperado, ressaltando que é necessária reformulação das mesmas e pensar em outras alternativas nessa direção. Isso denota que esse processo de revitalização é algo que exige esforço conjunto e que leva tempo. Além disso, mesmo que a cadeia volte a ser forte como em seu auge será necessário manter essa profissionalização do setor e o desenvolvimento de técnicas e otimização de processos para se manter competitivo e propiciar a sustentabilidade socioeconômica de Feira Nova.
Ao longo do desenvolvimento deste estudo identificou-se a falta de documentos formais que corroborariam para o entendimento da história da cidade, sinalizando-se este fato com limitação. Sendo sugestão para estudos futuros investigar os resultados destas parcerias e da intervenção e a sustentação da própria cooperativa após a finalização dessas parcerias e entender como outras cidades se estruturam em torno de cadeias produtivas, bem como outras ações intervenientes para revitalização de setores produtivos.
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Notas
Recepción: 23 agosto 2024
Aprobación: 27 marzo 2026
Publicación: 1 agosto 2026